Vem da Grécia antiga a história da mula de Tales. Representa a esperteza malsucedida. Sobreviveu ao tempo graças a Plutarco.

 

Com uma sobrecarga de sal sobre o lombo, a mula encontra um rio pelo caminho. Atravessa-o.

 

O sal derrete. O peso se esvai. E a mula, supondo que não era burra, não quis mais saber de outro caminho.

 

O dono da mula, que tampouco queria passar por asno, troca a carga do animal. Em vez de sal, sacos de lã.

 

A mula toma a picada do rio. Molhada, a lã pesa como sal seco. Por pouco o animal não se afoga. Chega à outra margem. Aprende a lição. E jamais se aventura no rio.

 

La Fontaine tratou de incorporar a história de Tales ao seu célebre fabulário. Deu-lhe novo colorido. Rimou-a. Metrificou-a.

 

Em vez de uma mula, serviu-se de dois asnos. Sobre o espinhaço de um, o sal. Sobre o lombo do outro, esponjas.

 

Nessa versão, os burriqueiros são personagens ativos do drama. Eles montam seus respectivos animais.

 

Pois bem, o par de burros mergulha no rio. O do sal, aliaviado do peso, sobrevive. O das esponjas morre afogado.

 

Quase leva junto o seu guia. Depois de lutar contra a morte, o infeliz é resgatado por um pastor.

 

Eis a moral lafontainiana: “Guiar por cabeças más/não é um bom portamento;/às vezes a dita de um/faz a desgraça de um cento”.

 

Corta para a Brasília dos dias que correm. Zoom na sala do ministro do Meio Ambiente. Ninguém disse ainda. Talvez por misericórdia. Mas Carlos Minc perde substância.

 

Carrega sobre os ombros o fardo das questões ambientais. Sentindo os joelhos vergarem, decidiu aventurar-se nas corretenzas da polêmica.

 

Foram tantas –e tão simultâneas— as encrencas compradas pelo ministro que elas passaram a pesar-lhe como a lã e as esponjas molhadas da mula e do asno.

 

Minc acomodou nas mãos de colegas de governo as “machadinhas” que tentam “esquartejar” a legislação ambiental no Congresso.

 

Mergulhando fundo na descortesia, pespegou nos produtores rurais –todos eles, indistintamente— a pecha de “vigaristas”.

 

O ministro, como se sabe, não é burro. Mas tornou-se candidato à extinção. Apelidaram-no de “Minc Leão Dourado”. Seu brilho, por gratuito, ofuscou o bom senso.

 

Salvou-se graças à condescendência de Lula. Na pele de pastor, o presidente resgatou o auxiliar das águas turvas de uma Brasília imersa em funda loucura.

 

Resta saber se o ministro aprendeu a lição. A julgar pelo que anda dizendo, não parece ser o caso.

 

Do matagal do ministério do Meio Ambiente não tem saído coelhos. Só cobras e lagartos. Uma pena.

 

Depois de décadas de descaso com o meio ambiente, o Brasil agora precisa cuidar do ambiente inteiro. E tem de fazê-lo compatibilizando produção e preservação.

 

Não é coisa simples. É tarefa para gente séria. Gente disposta a carregar o sal sem recorrer às espertezas do rio.

 

A menos que Minc tenha encontrado na polêmica o caminho de volta para o seu Rio de Janeiro natal.

 

A eleição de 2010 bate à porta. Deputado estadual pelo PT fluminense, o ministro terá de pedir votos.

 

A imagem do mocinho ambiental em luta contra bandidagem rural não ajuda o Brasil. Mas, na tribo de Carlos Minc, tem enorme apelo eleitoral.